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O balé da cachaça

Hélio Consolaro*

A tarde era de folia. Ainda não era carnaval, mas folia, folia santa. Era o encontro de folias de reis com grande comilança. Como parecia, demonstrava suas feições, havia um casal no salão que bebia sempre. Bebia para comemorar, bebia para chorar. Os cônjuges não eram foliões de vestimenta, apenas no comportamento. Era homem e mulher, pois na modernidade se faz necessário explicar isso.
Era o divertimento deles de domingo à tarde. Os dois saíam e bebiam cachaça depois de muitos eitos de cana, cortados durante a semana. Produziam álcool para andar; não, para cair. Eram bêbados de baixo custo.
A folia, tanto de reisado como de casado, ocorria no salão paroquial de um bairro bem urbano. Velhos ocupavam as cadeiras com a cabeça pensa de tanta recordação.
O padre não apareceu para dar sua bênção àquela festa religiosa. Alguns viam na ausência desprezo; para outros, a festa era santa por si.
O bêbado demonstrava um ciúme terrível de sua consorte azarada. Era o Bentinho pobre casado com uma Capitu mais pobre ainda. Percebia-se isso pelas palavras dele:
- Mulher minha tem que ser séria!
Pescoções masculinos voavam às dúzias em meio aos palhaços, mas nenhum acertava o alvo. Apesar de bêbada também, era mais ágil, conseguia se safar. Assim dançavam pelo salão o balé da pinga.
A comissão organizadora percebeu aquela folia paralela, uma espécie de pirataria. Enquanto os palhaços faziam estripulias para despistar soldados de Herodes, os dois bêbados tiravam a atenção das autoridades, presentes no festejo. Os seguranças, à paisana, resolveram intervir. Punha o bêbado pra fora, ele voltava. Parecia filme de Charles Chaplin: ia e voltava, voltava e ia numa rapidez de cena acelerada. Enxugavam gelo.
Até que os seguranças descobriram que o bêbado tinha uma bêbada, e ela estava no salão. Resolveram retirá-la também. Por ser dama, foram mais delicados com ela.
Puseram os dois para fora. Daí a pouco, olha os dois no salão, os xingos se misturavam com a cantoria. Não se sabia se era reza ou blasfêmia. Ela se enchia, orgulhosa, por despertar tanto ciúme naquele traste, apesar de sê-lo também.
Herodes não pôs as mãos no Menino Jesus, mas José e Maria daquela tarde bêbada foram levados por uma viatura policial. Acho que não tinham filhos. Se tivesse, estaria pedindo no templo.

*Hélio Consolaro é secretário da Cultura de Araçatuba-SP