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Carnaval & literatura

Hélio Consolaro*

O estudo técnico-científico de um assunto é necessário, a humanidade evoluiu por causa dele, mas seu prisma não poder ser único e nem o principal, pois com ele a poesia desaparece, a tradição nada vale, a filosofia fica em terceiro plano e arte é frescura. Deixemos o positivismo para o século 19.
Então. Isso tem implicações no conceito de cultura, para muitos o povo não a tem, só a elite intelectual. A versão mais cruel dessa visão é o despotismo ilustrado. Diante disso, alguns letrados não consideram as letras de músicas poemas cantados e arrolam uma lista de argumentos carregados de “ismos” para impressionar.
Para mim, “Ó Abre Alas” (1899), de Chiquinha Gonzaga, a primeira marchinha de carnaval é um poema cantado, meio parecido com as cantigas de amigo da Idade Média.
Afinal, sua autora era uma artista, rebelde, graças a Deus, mas conhecia música e freqüentava a intelectualidade. Ela fez a marchinha daquele jeito, curtinha e repetitiva, porque sabia onde seria cantada, precisava ser facilmente decorado pelo povo. Há muitos letristas, sem estudos, que são verdadeiros poetas.
O carnaval começa hoje, e o Sesc apresentou na sexta-feira (13/2), no pátio da Academia Araçatubense de Letras, onde funcionou o “Barzinho da Academia”, uma performance de Ayrton Salvanini, 61 anos, nascido em Araçatuba, sobre Jorge Amado, o escritor que tornou a Bahia conhecida no mundo. Houve leitura dos textos do baiano por Cidinha Baracat e Cecília Ferreira, uma cantoria de Mestre Tarzan e seu berimbau com músicas de Dorival Caymi. Assim se contextualizou o escritor em sua baianidade.
Apesar de o ato ter acontecido numa academia, lá houve muita emoção, subjetividade, aquele encantamento. Sentimentos próprios que envolvem obra, artista e fruidor.
Ao chegar em casa, fui ler mais sobre Ayrton Salvanini, que nasceu nestas bandas em 1947, mas Araçatuba não está em sua alma, apenas na certidão de nascimento. Saiu daqui de gatinhas.
Ele se define como militante do teatro mambembe, que dá espetáculos em qualquer lugar, como ocorreu no quintal da AAL: fez da garagem palco. Não se sabe se era palestra, declamação ou teatro.
Um intelectual multigênero, meio largadão, mas se diz um homem da palavra que abomina a improvisação e afirma que o belo nasce depois de muitos exercícios. Além disso, coerente, leva a sério o que prega: sinal de inteligência é sobreviver, fazendo o que gosta.
A ciência e a arte convivem bem, basta nenhuma querer mandar mais.

*Hélio Consolaro é escritor, membro da Academia Araçatubense de Letras e secretário da Cultura de Araçatuba.