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Carnaval é ação social

Hélio Consolaro*

Eu também já fui burro e besta, achava que investir no carnaval era perda de tempo. Aquela coisa da esquerda ou de quem está revoltado com a vida.
Na monarquia romana, havia a política de pão e circo, o carnaval seria o circo, uma forma de distrair o povo de seus verdadeiros problemas. Frase semelhante disse Karl Marx, classificando as religiões como ópio do povo. Frases que serviram a um momento histórico.
Não seria idiota de dizer que não há um pouco de verdade em tudo isso, mas a análise é mais complexa, não se pode reduzir a questão a sociologias e a análises ideológicas.
Toda comunidade tem seus momentos solenes, precisa gritar sua identidade. Também as pessoas necessitam de feriados prolongados. Outros até chamavam os brasileiros de preguiçosos. Sabemos que isso é preconceito de quem chama o povo simples de gentinha.
Há até gente, por exemplo, que classifica o baiano como preguiçoso só porque vivem do turismo. Mal sabem como a indústria do turismo dá trabalho, gera emprego. Enquanto os visitantes à Bahia se divertem, os baianos trabalham para melhor servi-los.
O carnaval gera muitos empregos, como qualquer festa ou atividades de lazer. As escolas de samba se transformam em verdadeiras fábricas. Clubes funcionam, precisam de gente para trabalhar; músicos são contratados. Nem todos gostam de participar da festa de Momo, mas muitos se sentem satisfeitos quando a vêem, por meio dela, sua cidade se projetando com a festa.
A classe média e alta têm outros meios de se divertirem, não precisam tanto do poder público. Há os ranchos, danceterias, viagens turísticas e o próprio recolhimento. Carnaval é mesmo a festa do povão miúdo, por isso, quem fizer o discurso da inclusão social não pode desprezá-lo.
Como atual secretário da Cultura de Araçatuba aprendi nesses dias de maestro do carnaval da cidade a valorizar na prática a cultura carnavalesca e as pessoas que nela atuam. Elas trabalham com paixão, com gana, não deixam a tradição arrefecer-se. É a cultura popular resistindo aos avanços da globalização.
Os bacanas podem dizer que os participantes do carnaval de rua são isso ou aquilo, mas na avenida ele se travestem de reis, rainhas, fantasiam a pobreza com plumas e paetês e saem na avenida, ainda anônimos, escondidos em máscaras. É uma alegoria irônica a gritar que as aparências enganam.
Quem vê de perto uma escola de samba se organizar para dar o show na avenida, passa a acreditar mais no povo e a ter orgulho de ser brasileiro.
*Hélio Consolaro é escritor e secretário da Cultura de Araçatuba-SP